CONTEÚDO E MÍDIA

A singularidade de ser plural

 

Por Chantal Brissac, revista 29 horas – Fevereiro 2019

O sábio filósofo Sócrates (470-399a.c.) já afirmava que “uma vida sem análise não merece ser vivida”. A existência é uma dádiva e por si só múltipla em possibilidades e desafios que se sucedem e se sobrepõem na trajetória de qualquer ser humano, do seu primeiro respiro até o último suspiro. Todos somos ricos em potencialidades, que podem ser trabalhadas ao longo da vida. Exemplos de pessoas que conseguiram aproveitar seus vários talentos e conhecimentos não faltam.

Steve Jobs, co-fundador da Apple, declarou em um famoso discurso para os formandos da Universidade de Stanford, em 2005, que o curso de caligrafia feito por ele na época da faculdade foi um dos mais importantes da sua vida.

“Aprendi sobre as variações no espaço entre diferentes combinação de letras, sobre as características que definem a qualidade de uma tipografia… Fiquei fascinado. Mas não havia esperança de aplicar aquilo em minha vida. Mas dez anos mais tarde, quando estávamos projetando o primeiro Macintosh, me lembrei de tudo aquilo.

E o projeto do Mac incluía esse aprendizado. Foi o primeiro computador com uma bela tipografia. Sem aquele curso, o Mac não teria múltiplas fontes. E, porque o Windows era só uma cópia do Mac, talvez nenhum computador viesse a oferecê-las sem aquele curso”, disse Jobs neste discurso.

Perfil renascentista

Leonardo da Vinci, um dos maiores gênios criativos do Alto Renascimento, foi nada mais nada menos do que cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico. Também se tornou conhecido como o precursor da aviação e da balística.

Não desprezou qualquer uma de suas aptidões, tampouco sua grande curiosidade com a vida. Pelo contrário: o criador de “Mona Lisa” e “A última ceia”, entre tantas obras-primas, sempre disse não à mesmice e à limitação. Pessoas com múltiplas vocações,  indivíduos que transitam por diversas áreas, são cada vez mais desejados no mercado de trabalho atual, em que as fronteiras foram esticadas e ampliadas. Como modernos Da Vincis, eles têm personalidades multifacetadas e muitos interesses.

Vida tripla


O médico e músico Samir Wady Rahme

O médico Samir Wady Rahme é um exemplo inspirador de profissional múltiplo e criativo. Médico antroposófico que clinica há muitos anos em São Paulo, Samir também é regente da Orquestra do Limiar, que há treze anos se apresenta em hospitais, levando música de qualidade a pacientes, funcionários e visitantes.

Samir acha natural esse casamento entre a medicina e a música. “A música me faz ser um médico melhor, e vice-versa. Segundo a medicina antroposófica, a arte é bem-vinda para o médico e o profissional de saúde, que fica mais humanizado e tem sua visão de mundo ampliada”, afirma o médico-músico, antes de confessar que também tem uma terceira função, descoberta recentemente: a de agricultor e produtor de azeite.

“Comecei plantando oliveiras no meu sítio em Minas e hoje já tenho três mil pés”, comemora Samir. “No final, tudo se harmoniza: a música, a saúde, a alegria e o bom azeite”, diz.

Mais camaleão do que polvo

Marina Franco, assumida multipotencial, lembra que, por muito tempo, só se valorizavam os profissionais especialistas, que tinham conhecimento profundo sobre algum tema.


A designer e estrategista, Marina Franco

“Atualmente, quando falamos de inovação entendemos que ter repertório é importante para ativar a criatividade na hora de criar soluções e inovar. E então surgiram profissionais que, apesar de terem uma ou várias especialidades, também acolhem um vasto repertório de conhecimentos diversos”, ela explica.

Esse conceito é chamado de conhecimento “T” – na vertical do “T” ficam os conhecimentos de mais profundidade, e na horizontal os menos profundos, mas diversos. “Ser multipotencial não significa ser multitarefa. Não é sobre fazer tudo ao mesmo tempo. É mais sobre ser camaleão do que ser polvo”, diz Marina.

Atualmente ela atua como Facilitadora do Programa Germinar, um curso de desenvolvimento humano com base antropológica; faz parte da Waves, (des)aceleradora que integra a sabedoria das pessoas aos seus projetos; presta consultoria de facilitação de processos; atua como coach de apresentadores em parceria com a agência Muda de Ares; atende a Secretaria de Turismo da Cidade de Socorro na área de comunicação; e ainda se envolve em outros projetos que a apaixonam pelo caminho.

Segundo Marina, a principal característica dos multipotenciais é a capacidade criativa, de conseguir combinar um vasto repertório de conhecimentos. E a valorização desse tipo de profissional se deve por ambientes cada vez mais competitivos e orientados à inovação.

Ela mesma, na hora de montar um time, sempre considera o alinhamento com a cultura da empresa, a diversidade (origem, experiências, etnias etc.), que traz diferentes pontos de vista, e a multipotencialidade das pessoas.

Ser filha de empreendedores – e multipotenciais: o pai é músico e a mãe é muito ligada à espiritualidade – também ajudou. “Ser multi é uma atitude, um inconformismo, uma forma de olhar a vida. É estar aberto às diversas possibilidades, ser curioso pra caramba, questionador e não se contentar em ser uma coisa só nessa vida tão múltipla”.

Engenharia e fantasia

Hoje há muito mais gente mostrando a singularidade de ser plural. O engenheiro elétrico, consultor e professor livre docente da Politécnica (USP) Sergio Luiz Pereira sempre se sentiu “renascentista” neste sentido. Além de sua bem-sucedida formação na engenharia e na área de sustentabilidade, ele é escritor e violonista.

Seu mais novo lançamento é a trilogia “A Menina do Piano Alemão”, um romance fantástico que fala sobre o universo da música. Junte-se a isso o gosto pela natureza e pelos esportes e o talento como chef de cozinha, e se tem aí uma pessoa vibrante e que interage com o mundo de forma holística.

Além de ampliar seu campo de atuação no mercado de trabalho, os indivíduos multi agregam diversas habilidades, talentos e paixões. São sincronicamente especialistas e generalistas. Amam o que fazem e amam a vida. Aumentam a possibilidade de serem felizes e de se manterem felizes – certamente o atributo mais desejado nos dias atuais, período em que as pessoas buscam a harmonia em seus diversos papéis.

Vias paralelas são tendência


Maria Candida Baumer Azevedo

Maria Candida Baumer Azevedo, sócia da People & Results, empresa especializada em gestão de carreira, acredita que esta é uma marca dos novos tempos. “Hoje os profissionais fazem várias faculdades, têm muito estímulo e estão mais conectados, o que facilita esse comportamento”.

Candida fez um levantamento com 500 brasileiros com pós-graduação para o seu trabalho de doutorado na Universidade de Heerlen, na Holanda. “Descobri que 27% deles têm carreiras paralelas. São pessoas automotivadas e com uma grande capacidade de serem multifuncionais e solucionarem problemas”, afirma.

De acordo com a consultora, outra fatia também tem se mostrado aberta a novos respiros e experiências. “São pessoas acima de 60 anos que nem pensam em se aposentar, têm repertório riquíssimo e muito para contribuir. Muitos se lançam em diferentes áreas”.

Já a parcela jovem, ela reflete, deseja se sentir preenchida. “No passado, você fazia o que a empresa queria, hoje a empregabilidade é responsabilidade de cada um. O aprendizado contínuo e o mergulho em interesses múltiplos trazem protagonismo, energia e autonomia na gestão da própria carreira. As empresas valorizam esse tipo de pessoa”.

Que, aliás, leva vantagem sobre o perfil tradicional: o networking é maior, com mais oportunidades; o dia a dia é intenso e dinâmico; há uma certa segurança em relação à instabilidade do mercado, e, no campo financeiro, o ganho pode ser mais interessante.