Nem sempre as startups são uma boa escolha para sua carreira

Nem sempre as startups são uma boa escolha para sua carreira

Fazer parte do começo de um negócio promissor pode ser uma experiência incrível, mas não se engane: existem mitos relacionados a essa oportunidade

Se há um local que parece idílico aos olhos dos jovens profissionais é o mundo das start­ups. Algumas das crenças frequentes associadas ao trabalho nessas empresas são o acesso aos fundadores a qualquer hora, a flexibilidade de horário, a autonomia para tomar decisões, a possibilidade de crescer rapidamente, tornar-se sócio e até milionário.

A vontade de participar de um projeto desses é tamanha que um estudo conduzido em 2012 pela Millennial Branding e PayScale concluiu que a maioria dos profissionais de 19 a 29 anos não é atraída por grandes empresas.

Dos mais de 500 000 americanos entrevistados, só 23% trabalham em corporações. No Brasil, a situação não é tão diferente. “Dos mais de 25 000 jovens que já participaram de nossos programas, 60% demonstraram interesse em empreender ou trabalhar numa startup”, diz Anamaíra Spaggiari, gerente de produtos de educação na Fundação Estudar.

A visão romantizada, no entanto, pode camuflar parte da realidade — que não é tão doce assim. Para começar, é preciso ter consciência do risco: 74% das startups brasileiras fecham após cinco anos de funcionamento, segundo um levantamento feito entre 2011 e 2016 pela aceleradora Startup Farm, de São Paulo.

Mesmo assim, muita gente paga para ver, principalmente para fugir do tradicionalismo das grandes empresas. “O atrativo é a ausência do que os jovens consideram autoritarismo. Eles querem autonomia, liberdade para expor suas ideias e fazer parte da construção do negócio”, afirma Neuza Chaves, da Falconi, consultoria de São Paulo.

Liberdade total?

Foi justamente para fugir do tradicional que o engenheiro eletricista Daniel Sasai, de 29 anos, optou por um estágio numa startup de sistemas de gestão empresarial, e-commerce e software em 2011, quando cursava o quarto ano da faculdade na Universidade de São Paulo.

Apesar da inexperiência no mercado de trabalho, ele assumiu todas as funções relacionadas à área de desenvolvimento de plataforma web depois de efetivado. “Eu tinha de decidir tudo, implementar os projetos e resolver os problemas”, diz Daniel. Ser tão novo e se ver, de uma hora para a outra, responsável por tanta coisa pode inflar o ego. Afinal, nas organizações tradicionais, o trabalhador costuma ser apenas uma das muitas peças da engrenagem. “Em uma startup, o profissional consegue ver o impacto real de seu trabalho e ampliar o conhecimento em pouco tempo”, diz Maíra Habimorad, CEO da Cia de Talentos.

Por outro lado, é necessário lidar com a pressão das entregas. “O jovem só costuma ver o lado bom da autonomia, como a maior liberdade de ação e a ausência de um chefe controlador. Contudo, deve-se considerar também a alta carga de responsabilidade e de exigência.” Nesse sentido, Daniel foi percebendo que o nível de liberdade era diretamente proporcional ao de cobrança — que, para ele, era altíssimo. “Muita liberdade pode gerar decisões ruins”, diz o engenheiro.

Isso acontece porque, no começo, as startups são pouco estruturadas e a falta de processos impacta não só o negócio, mas também o desenvolvimento dos profissionais. “Nem sempre existirá um plano de carreira, uma conversa de feedback formal ou uma liderança experiente para guiar o funcionário, como um mentor”, diz Raphael Falcão, diretor da Hays, empresa de recrutamento, no Rio de Janeiro. “É preciso se desenvolver sozinho, o que não aconteceria em uma empresa estruturada e com boas práticas de gestão”, afirma.

Por isso, vale mais um alerta: só se sai bem nesse tipo de ambiente quem tem capacidade de autogestão e pró-atividade para tomar as rédeas da própria carreira. Mas nem todo mundo tem esse perfil. “Quem gosta de receber diretrizes no trabalho deve pensar duas vezes”, diz Maria Candida Baumer de Azevedo, diretora da People & Results, consultoria de São Paulo.

Quero ser um milionário

Quando a analista de conteúdo Raquel Rodrigues, de 26 anos, trocou o emprego em uma grande agência de comunicação por uma startup recém-criada, sabia que não iria fazer rios de dinheiro imediatamente — até porque o salário inicial era baixo. Mas, em um ano, quem sabe? “Na entrevista, me venderam o discurso de que eu me tornaria sócia e cresceria rápido”, diz.

A realidade, contudo, mostrou-se diferente: apesar de ter um investidor-anjo, a start­up não conseguiu sobreviver por muito mais de um ano e, aos 25 anos de idade, Raquel estava sem trabalho nem seguro-desemprego. “Eu fui viver esse sonho e me dei mal. Ainda bem que eu era mais nova e não tinha uma família dependendo do meu salário”, afirma.

A experiência, apesar de um pouco traumática, ensinou a jovem a olhar além das aparências e entender que é importante conhecer o novo empregador. Por isso, Anamaí­ra Spaggiari, da Fundação Estudar, aconselha o candidato a aprofundar a investigação sobre a empresa na qual avalia trabalhar. “Não é só a ideia ou o investimento que fará uma startup dar certo; depende muito mais das pessoas envolvidas no projeto. Apurar quem são os fundadores, a equipe e o nível de engajamento do time é essencial”, afirma.

Mais do que isso, é importante entender que todo emprego terá suas dificuldades e seus benefícios. Se você busca uma startup para fugir de problemas ou porque este tipo de negócio está na moda, é melhor repensar seus planos. Ninguém é 100% livre ou está 100% satisfeito no trabalho — nem mesmo Mark Zuckerberg.

“Dos mais de 25 000 jovens que já participaram de nossos programas, 60% gostariam de empreender ou trabalhar numa startup”
–  Anamaíra Spaggiari, gerente de produtos da Fundação Estudar

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Cheque a compatibilidade

Entender o que a startup espera de seus profissionais e o que ela vai entregar (aprendizado rápido, compensação financeira por meio de bônus etc.) é essencial para o ajuste de expectativas. “Tendo essa noção, o jovem deve se perguntar se ele é o profissional certo para aquela empresa e se ela é a empresa certa para ele”, diz Marshal Raffa, diretor executivo da Thomas Case, empresa de recolocação profissional, de São Paulo.

Descubra em que fase está a startup

Uma startup em estágio embrionário envolve mais os funcionários na tomada de decisões, requer jornadas mais longas de trabalho, dispõe de menos recursos financeiros e não se preocupa tanto com regras como definição clara da jornada de trabalho. “Se ela estiver nos primeiros meses, vai precisar de profissionais multitarefas, que colocam a mão na massa e se sentem confortáveis com mudanças constantes”, afirma Maria Candida, da People & Results.

Já uma empresa com algum tempo de existência, será mais estruturada e se assemelhará a modelos tradicionais de negócio.

Ouça muita gente

“Converse com pessoas que já trabalharam em startups e que possam dar um feedback honesto sobre como é o dia a dia”, diz Alan Leite, CEO da aceleradora Startup Farm, de São Paulo. Coaches, consultores e pessoas atuantes em aceleradoras ou como investidores-anjos também são boas fontes.

Conheça a equipe e o mercado

O sucesso de uma startup não depende de um indivíduo; por isso, conhecer o nível de comprometimento, profissionalismo e maturidade dos futuros colegas — e principalmente dos fundadores — pode evitar riscos desnecessários. Da mesma forma, deve-se analisar o mercado. “Às vezes, uma ideia é boa, mas o sucesso depende do contexto em que está inserida”, diz Anamaíra Spaggiari, da Fundação Estudar.

Analise sua situação financeira

“Você está disposto a entrar em uma empresa que pode acabar em uma semana?.” A pergunta de Maíra Habimorad, CEO da Cia de Talentos, é simples, mas nem sempre feita pelos jovens. Se você tiver segurança financeira e disposição ao risco, trocar algo estável por um negócio novo pode ser uma boa. Se não, considere fazer um pé-de-meia antes de se aventurar ou busque uma startup um pouco mais madura.

Experimente antes

É possível fazer trabalho voluntário em algumas startups para conhecer a área antes de mudar de emprego. A Startup Farm, por exemplo, tem um programa de cinco semanas em que o jovem faz parte de uma equipe e ajuda no desenvolvimento de um negócio. “A empresa ganha mão de obra e o voluntário, experiência”, afirma Alan Leite, CEO da aceleradora.

 

FONTE:  EXAME

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