‘Efeito Google’ muda uso da memória humana

Com internet sempre à mão, cérebro humano deixa de se preocupar com armazenamento de informações para confiar em banco de dados digital; efeitos de comportamento já podem ser sentidos na educação e no mundo corporativo…

O Estado de SP – 06.06.2016

Por Bruno Capelas

Pense rápido: qual o número de telefone da casa em que morou quando era criança? E o celular do colega de trabalho que chegou à empresa há cerca de seis meses? Provavelmente, foi mais fácil responder a primeira pergunta do que a segunda – mas antes que você comece a questionar a sua memória, é importante dizer: você não está sozinho. Estudos científicos chamam esse fenômeno de ‘efeito Google’ ou ‘amnésia digital’, um sintoma de um comportamento cada vez mais comum: o de confiar o armazenamento de dados importantes aos nossos dispositivos e à internet no lugar de guardá-las na cabeça.

A ideia é simples: se você não tem de lembrar de cor todos os números de telefone de todos os seus contatos, uma vez que eles estão no seu smartphone, pode ocupar sua memória com informações mais importantes ou úteis. “É parecido com o diretor que delega para sua secretária a tarefa de lembrar seus compromissos, ou com usar uma agenda de telefones para registrá-los”, explica o neurologista Paulo Bertolucci, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Utilizar um recurso externo para não precisar lembrar de algo não é exatamente novo – vale lembrar das aulas de história, em que o

aparecimento da escrita é considerado um dos grandes marcos da evolução da humanidade. No entanto, quando informações importantes são confiadas ao mundo digital, há uma diferença na maneira como esses dados são acessados.

“Para achar um dado em um livro, preciso saber qual é o livro e lê-lo até achar o que preciso. É um grande trabalho: por isso, muitas vezes retemos esses dados conosco para não ter de encontrá-los outra vez”, diz o pesquisador Adrian F. Ward, da Universidade de Austin, nos Estados Unidos.

Na internet, porém, basta um clique para vasculhar um sem-número de informações: segundo Ward, o acesso rápido e a quantidade de textos faz com que o cérebro humano não considere útil gravar esses dados, uma vez que é fácil encontrá-los de novo rapidamente. “São dados que ficam apenas na nossa memória de trabalho, que é rapidamente descartada”, explica Bertolucci, da Unifesp. “É como quando consultamos o telefone de uma loja: após discar e fazer a ligação, não precisamos mais dele.”

É o que mostra também uma pesquisa recente conduzida pela empresa de segurança digital Kaspersky, realizada com 6 mil pessoas em países da União Europeia. Ao receberem uma questão, 57% dos entrevistados tentam sugerir uma resposta sozinhos, mas 36% usam a internet para elaborar sua resposta. Além disso, 24% de todos os entrevistados admitiram esquecer a informação logo após utilizá-la para responder a pergunta – o que gerou o termo ‘amnésia digital’.

Para Bertolucci, da Unifesp, no entanto, o conceito é incorreto. “Amnésia significa esquecer-se de algo: na ‘amnésia digital’, a pessoa no entanto não chega nem a aprender, e portanto não consegue esquecer algo que escolheu nem se lembrar.”

Ignorância. O problema pode ser mais grave do que se imagina: além de recorrer à internet para guardar informações, muitas pessoas têm a impressão de que os dados online fazem parte de sua própria memória.

Em sua tese de doutorado na Universidade de Harvard, Adrian F. Ward fez o seguinte experimento: 155 pessoas foram divididas em três grupos para responder a um questionário com 10 perguntas de conhecimentos gerais: um grupo não teria acesso ao Google para pesquisar respostas, enquanto os outros dois poderiam buscar soluções na internet – um deles, no entanto, receberia resultados falsos à correção de seus testes, acreditando que teriam 80% de aproveitamento.

Na sequência, Ward pediu para que os três grupos estimassem seu desempenho caso respondessem a um teste semelhante sem a ajuda da internet. O grupo que recebeu o feedback falso apostou que teria o melhor desempenho, com 65% de aproveitamento em um novo teste – quem não pode recorrer à internet apostou que teria 4 acertos em 10 questões, enquanto os usuários que tiveram acesso à rede mas receberam corretamente seus resultados previram que teriam 55% de acertos. “Aprender pode ser uma habilidade: assim, é bom saber tanto o que se sabe como ter compreensão do que não se sabe. Com a internet sempre acessível, essa fronteira se torna borrada”, diz Ward.

Não vale ‘colar’. O ‘efeito Google’ já tem suas consequências sendo sentidas na sala de aula, ao provocar mudanças na forma como crianças e adolescentes aprendem. “É difícil convencer os estudantes de que eles precisam guardar um dado, porque hoje a informação é uma commodity, que pode ser encontrada em qualquer lugar”, diz a pesquisadora em neurociência Kathryn Mills, da University College of London. Para Ward, a melhor solução é fazer os jovens trabalharem em torno de um problema. “Ao resolver um problema, você relaciona informações, e aí pode se conectar com elas”, diz o pesquisador.

Além disso, ao usar a internet como fonte de informações, muitas vezes é fácil incorrer ao erro – ou encontrar um dado impreciso. “Ao fazer uma prova com consulta à internet, é muito fácil que um aluno encontre uma data história incorreta e acabe errando uma questão”, exemplifica a psicóloga Ana Luiza Mano, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Para a psicóloga, é importante que as escolas também se dediquem a ensinar como filtrar o que pode ser útil em meio a um turbilhão de informações disponíveis na rede.

Segundo Claudio Martinelli, diretor da Kaspersky, o efeito Google também tem lados positivos, como o fato de que não precisar lembrar de todos os detalhes na hora de resolver um problema pode liberar a criatividade para encontrar a solução.

“As informações estão todas a um clique, de forma que o cérebro pode fluir livremente”, diz ele, baseado em uma pesquisa realizada pela consultoria em 2015, com profissionais de negócios de 13 países: 46% dos entrevistados acreditavam que se tornavam menos criativos à medida que tinham de se lembrar de mais detalhes.

Profundidade. No mundo corporativo, o ‘efeito Google’ também já gera reflexos. De acordo com Maria Cândida Azevedo, diretora da consultoria em carreira da People & Results, os jovens que hoje chegam ao mercado de trabalho têm como um de seus principais trunfos a capacidade de encontrar informações de forma muito rápida. “Apesar de ter mais informações, essa geração tem baixa profundidade na hora de elaborar suas decisões”, diz Maria Cândida.

Para a consultora, esse problema é decorrente não só do ‘efeito Google’, mas também da baixa qualidade do ensino no País. “Hoje, em um processo seletivo, o candidato que tiver profundidade vai se destacar na multidão”, explica. Maria Cândida ressalta ainda que, se em tempos de bonança econômica, a necessidade de mão de obra favorecia a contratação de profissionais “sem tanta profundidade”, em tempos de crise são justamente os funcionários que têm menos a oferecer que são demitidos mais rápido.

Para quem ficou preocupado, muita calma nessa hora: segundo os especialistas, há meios para conseguir reter as informações obtidas pela internet e exercitar melhor sua memória. Atividades como ler e jogar xadrez são recomendações clássicas para manter o cérebro ativo, mas é possível ir além. “Se o que você quer guardar faz parte dos seus interesses, tente se engajar com a informação, fazendo resumos ou escrevendo sobre o tema”, diz Ward. Além disso, ele provoca: “tente deixar seu smartphone em casa um ou dois dias da semana. Sem ele, você se torna dependente apenas da sua memória, o que pode ser bom para reter dados.”

 

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