A culpa é da mãe?

Pressão faz primogênitos escolherem profissões mais tradicionais, diz pesquisa; novas gerações podem estar menos sujeitas a isso

ISABEL KOPSCHITZ – Folha de S. Paulo – 02 de junho de 2014

O modo como os pais tratam os filhos, com diferentes níveis de cobrança, tem mais influência na escolha da carreira do que os conselhos que eles dão sobre o assunto? Pesquisas sugerem que sim.

Um levantamento feito na USP com 279 profissionais brasileiros com ensino superior e ao menos 15 anos de experiência indicou que ser o filho mais novo ou o mais velho gera reflexos na escolha do trabalho (veja ao lado).

Outro estudo, da Escola de Negócios da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, com 109 estudantes de MBA, indica que a forma como os pais lidam com seus filhos durante a adolescência determina qual significado os rebentos vão dar ao trabalho.

Filhos mais próximos da mãe tendem a valorizar mais o caráter social do emprego, enquanto os que têm relação estreita com o pai são propensos a imitá-lo, diz o estudo.

“A dinâmica familiar influencia muito as decisões. Por serem mais cobrados, os mais velhos se preocupam mais em corresponder às expectativas”, afirma a pesquisadora Graziela Dias, autora do estudo na USP.

A administradora Lívia Zappa, 31, conta que sentiu o peso da responsabilidade de ser a primogênita ao fazer essa escolha. Ela tinha vontade de cursar psicologia, mas acabou seguindo os passos do pai. Hoje, dirige a empresa de matérias-primas para móveis da família em Cruzeiro, no interior de São Paulo.

“Meu pai queria alguém ao lado dele na empresa. O filho mais velho acaba ficando com a transferência de responsabilidade”, afirma.

Denise Sartorato, 38, filha mais velha de um casal de dentistas, conta que a escolha pela carreira foi natural por ter vivido a profissão dos pais desde criança.

“Eu costumava esperá-los no consultório e ficava brincando com o espelhinho. Apesar dos alertas deles sobre as dificuldades da profissão, segui em frente. ”

Segundo a pesquisa de Dias, o filho do meio costuma preferir carreiras na área de humanas (com exceção de administração), sendo o irmão menos convencional e, muitas vezes, o mais rebelde. Foi o que aconteceu com o artista plástico Victor Paulo Vieira, 22, o irmão do meio entre uma empresária e uma estudante de jornalismo.

“Sempre tive veia artística. Nunca visei uma carreira, mas um meio de me expressar e me descobrir”, conta.

Fisioterapeuta há dez anos, Jonatan Galina, 32, é o típico filho mais novo, segundo a pesquisadora da USP. Ele entrou na área pelo ideal de trabalhar com saúde e ajudar os outros. E chegou a trabalhar no escritório de advocacia do pai, mas não quis fazer direito. Em outro momento, atuou como gerente de vendas, mas acabou voltando à fisioterapia.

“Mesmo que os salários não sejam os ideais, adoro o que faço. Não me vejo preso em um escritório o dia todo.”

NOVOS TEMPOS

Entretanto, para a professora de psicologia Dulce Helena Soares, da UFSC, as relações familiares sofreram transformações e os filhos da chamada geração Z (nascida nos anos 2000) já não se sentem tão vulneráveis às vontades ou aos estímulos dos pais. “Antigamente, os filhos seguiam mais os conselhos dos pais. Agora, já não os aceitam mais tão pacientemente.”

“Agora, os pais é que lutam pelo amor dos filhos”, completa Eline Kullock, consultora de recursos humanos do Grupo Foco.

Para a diretora da consultoria People & Results, Maria Candida de Azevedo, os pais devem orientar os jovens sobre a carreira antes dos 14 anos, que é quando existe a maior janela de aprendizado.

Segundo ela, três parâmetros devem guiar as conversas: a ausência de preconceito, a ajuda na escolha de uma profissão de formação mais generalista, o que facilita a colocação no mercado de trabalho, e a escolha de cursos cujas grades favoreçam a profundidade de raciocínio.

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