Carreira paralela facilita mudança de área profissional

A insatisfação com o trabalho desperta, muitas vezes, o desejo de jogar tudo para o alto e começar do zero em uma nova carreira. Porém, esse está longe de ser o melhor caminho para quem pretende mudar de área profissional.

“A maioria das pessoas comete o grave erro de largar tudo para começar uma segunda carreira. E quebra a cara, porque não se preparou tecnicamente, financeiramente nem emocionalmente”, afirma o consultor em gestão de pessoas Eduardo Ferraz, também autor do livro “Seja a Pessoa Certa no Lugar Certo” (Editora Gente).

O consultor acredita que o ideal é manter uma carreira paralela até estar pronto para a mudança. Ferraz sugere que o profissional desenvolva o novo trabalho aos poucos, nos horários vagos, por pelo menos um ano. “Só faça a transição definitiva quando estiver tudo certo ou muito bem encaminhado”, orienta.

Para Maria Candida Baumer de Azevedo, consultora especializada em carreira e professora da Fundação Dom Cabral, que realizou uma pesquisa sobre carreiras paralelas, esse também é o caminho mais seguro para recomeçar em outra área. No estudo, com 401 pós-graduados, 25% declararam ter mais de uma carreira. Entre esses, 21% fizeram essa opção como primeiro passo para mudar de carreira.

“A carreira paralela dá tanto a segurança da escolha quanto a experiência necessária para não ter que iniciar algo sem nunca ter feito, sem nenhuma bagagem”, diz Maria Candida. Depois de vivenciar um pouco a prática da profissão ou do trabalho almejado, fica mais fácil ter certeza se é isso mesmo o que ser quer, evitando precipitações e escolhas erradas.

Conheça histórias de quem conseguiu transformar o hobby em profissão

“Desde muito pequeno, sempre gostei de pintar. Minha família é nordestina e cresci em um meio cultural muito forte. Meu pai é engenheiro e, por conta de sua profissão, moramos fora do País. Com oito anos de idade, ganhei meu primeiro concurso na Embaixada do Brasil. A pintura me divertia e nunca planejei: “vou ser artista”. Na fase do vestibular, optei por fazer designer gráfico e pude conciliar a arte e o preparo para a profissão, pois o curso exige criatividade, cores e conteúdos. Durante vinte anos, fiquei envolvido com o universo do design e da publicidade. Mas o esquema de agência é muito estressante e sentia que precisava de um tempo. Por quase dez anos, planejei parar com tudo e estudar. Não queria passar “perrengue” financeiro. Quando consegui o equivalente a dois anos de reserva financeira para sustentar meu sonho, fui para Londres fazer um curso de pós-graduação em gravura. Quando retornei dessa viagem, decidi que precisava alugar um espaço para me dedicar ao trabalho autoral. E não podia fazer isso em casa, precisava ter disciplina. Queria investir nisso. Ainda assim, voltei a trabalhar em agência e mantive as duas funções por dez anos. Para investir no sonho, precisava de uma transição gradual. O que eu ganhava com a minha arte, investia em material e guardava. E com a renda de designer eu me mantinha, pagava as contas. Quando comecei a ganhar dinheiro com a minha arte, percebi que podia enfim me dedicar só a este trabalho. Mas, investir em um hobby não é relaxante, é trabalhoso também. E isso exige planejamento. Gostar só não basta, é preciso não conseguir viver sem. Nem sei dizer se a arte é um hobby, pois sempre foi a minha vida”. Rogério Fernandes, 43 anos, artista plástico Carol Salgado/Divulgação

Dificuldades

Se manter uma única carreira já é difícil, imagine duas. Antes de se lançar em uma atividade paralela, o profissional precisa ter em mente as dificuldades que irá enfrentar. “Vai ter que trabalhar dobrado, no mínimo 30% a mais”, afirma Eduardo Ferraz.

Nas empresas que exigem resultado ao invés de horas de trabalho, é mais fácil coordenar o emprego com uma carreira paralela. Entretanto, naquelas com jornada fixa o empenho torna-se ainda maior e qualquer horário livre, como à noite ou nos fins de semana, serve como oportunidade para se dedicar ao outro trabalho.

Geralmente, no início, para deslanchar a nova carreira é necessário trabalhar de graça para adquirir experiência. Além de não ganhar nada, o profissional também costuma gastar com cursos, para capacitação, e deslocamentos.

Ter um bom nível de organização é fundamental para dar conta de todas as atribuições. Entretanto, mais importante do que isso, na opinião de Maria Candida, é a paixão pelo novo trabalho. “A pessoa só consegue ter esse aumento de esforço se tem paixão no que está fazendo”, declara.

Antes de se apaixonar, o profissional deve ao menos saber o que gosta e criar coragem para se arriscar. Em uma pesquisa realizada em 2013 com 1.000 pessoas de 22 estados brasileiros pela Pactive Consultoria, coordenada por Eduardo Ferraz, apesar de 58% dos entrevistados declararem que já pensaram muitas vezes ou algumas vezes em começar uma nova carreira, 31% disseram que não mudaram por medo de arriscar e 16% por incerteza acerca do que gostam.

“Se a pessoa não sabe o que quer, não adianta mudar porque vai continuar insatisfeita”, diz Ferraz.

Hobby ou talento?

Transformar o hobby em profissão é um anseio comum quando se trata de migrar de carreira. Para Maria Candida, o hobby até pode ser o ponto de partida, mas a certeza de que irá se tornar uma carreira só virá depois da experimentação e do feedback de pessoas capazes de avaliar criticamente esse trabalho (veja abaixo).

No caso de Luiz Francisco de Vasconcelos Oliveira e Silva, 39 anos, conhecido como Duico Vasconcelos, essa ideia deu certo. Ele trocou a carreira de advogado para trabalhar como malabarista e, depois, palhaço.

Arquivo pessoal

Duico Vasconcelos, que abandonou a carreira de advogado, como palhaço Pistolinha, atuando pela ONG Doutores da Alegria

Desde 2006, Duico atua como o palhaço Pistolinha no Circo dos Sonhos, em São Paulo (SP), e também faz parte do projeto Doutores da Alegria, ONG que promove visitas a crianças hospitalizadas.

As artes circenses surgiram por acaso na vida de Duico Vasconcelos. Foi na festa na casa de um amigo que ele descobriu o malabarismo e começou a praticá-lo. Entretanto, levou dois anos para fazer dessa atividade paralela sua principal carreira.

“Chega uma hora que você está andando com um pé em cada barco. E esses barcos vão se abrindo e você tem que fazer uma opção. Eram duas carreiras que não eram compatíveis”, compara Duico Vasconcelos.

Apesar das expectativas da família, que investiu em sua formação no Direito, ele acabou preferindo os malabares. “Decidi optar pelo lado da arte, colocar meus dois pés ali, até porque já tinha OAB [registro da Ordem dos Advogados do Brasil] e pensei que se não desse certo conseguiria voltar”, conta.

Duico diz que não se arrependeu de sua escolha e nunca mais pensou em voltar para o Direito. “Sou completamente feliz porque faço o que gosto e isso é fundamental na vida”, afirma.

 

Quatro passos para ter sucesso com a carreira paralela

Paixão – Identificar o que lhe desperta paixão, o que o estimula a fazer sacrifícios, a trabalhar fora do horário para conquistar seus objetivos e o que faz seus olhos brilharem. A paixão é o combustível para a mudança. Sem ela, dificilmente alguém conseguirá levar uma carreira paralela para migrar de área profissional.

Feedback – Encontre pessoas que possam avaliar de maneira crítica seu trabalho. É preciso descobrir se você realmente tem competência para atuar no novo ramo profissional que escolheu. Não basta ser mediano, é necessário ter certeza que você é bom no que faz.

Experimentação – A idealização da nova carreira costuma ser bem diferente da prática. Antes de se lançar em outro trabalho, é fundamental experimentar, testar e conhecer o cotidiano da profissão. Trabalhar de graça ajuda a ter certeza se é isso mesmo que você quer e a ganhar experiência no novo ramo.

Mercado – Mesmo que você seja competente e tenha paixão pelo novo trabalho, é essencial avaliar se existe um mercado a ser explorado antes de fazer a transição de carreiras. Há espaço para o que você está querendo fazer? A remuneração atende às suas expectativas? Considere o mercado antes de tomar uma decisão.

Fonte: Maria Candida Baumer de Azevedo, consultora especializada em carreira e professora da Fundação Dom Cabral. 

Yannik D’Elboux
Do UOL, no Rio de Janeiro

25/04/201407h43 

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