Happy hour de verdade ?

Uma vez por mês, Marcelo entra em campo para apitar partidas de futebol – em muitos casos, sob gritos nada elogiosos por parte da torcida. Filho de um professor de arbitragem, ele transformou a curiosidade em trabalho. Em 1997, Marcelo se matriculou no curso da Federação Paulista de Futebol (FPF) para entender melhor o assunto e atualmente, aos 41 anos, soma mais de 500 jogos oficiais nos gramados paulistas.
Paixão de Marcelo, de segunda a sexta o uniforme fica enclausurado no guarda-roupa. Durante a semana, ele cumpre expediente em seu negócio próprio – uma loja de fechaduras que mantém há 25 anos na Vila Mariana, zona sul de São Paulo. Às 18h, quanto as portas se fecham, ele segue para o treinamento na academia ou no Parque do Ibirapuera. Ele também divide o tempo em consultas com um nutricionista e um psicólogo, além da graduação em educação física, que cursa de olho em uma vaga para árbitro da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

  

Empresário a maior parte do tempo, a arbitragem é uma carreira paralela de Marcelo. Esse é o caminho seguido tanto por profissionais maduros quanto jovens, acostumados a fazer várias coisas ao mesmo tempo. “Carreiras paralelas exigem competências diversas, ao contrário de um segundo emprego, quando a atividade desenvolvida é a mesma mas com diferentes empregadores”, explica a consultora em recursos humanos Maria Cândida, da People&Results, cuja tese de doutorado é sobre o assunto.

Há vários motivos para isso: a transição para uma área profissional diferente; a proximidade da aposentadoria no trabalho convencional; ou a necessidade de complementar a renda. Porém, o interesse em novos relacionamentos, enfrentar desafios diferentes e aprender algo novo estão no topo da lista de quem opta por uma segunda carreira. “Um profissional como esse tem capacidade intelectual mais alta para solucionar problemas”, ressalta Maria, para quem as empresas deveriam estimular carreiras paralelas.

Geralmente nervoso na administração da loja, Marcelo tenta aplicar em seu negócio a paciência e tranquilidade que são essenciais para apitar um jogo de futebol. “Assim, posso tomar decisões corretas na empresa”, aponta. Entretanto, nem toda mudança é fácil. Para dar conta, ele tem uma vida regrada. Solteiro, não sai à noite e toma cuidado com quem anda ou o que posta nas redes sociais. Qualquer sinal de polêmica pode arruinar sua carreira como árbitro.

Vale a pena?
Antes de iniciar uma segunda profissão, Maria Cândida aponta quatro pontos de atenção: em primeiro lugar, o profissional deve avaliar se o que pretende fazer é prazeroso para ele; depois, conversar com pessoas da área para entender como é esse universo; o terceiro passo é experimentar essa realidade por meio de um trabalho voluntário ou um estágio; e, por último, pesquisar como está o mercado no qual deseja ingressar. “À medida que vou passando por isso, eu vejo até que ponto é apenas um hobby ou algo em que quero atuar como profissional”, acrescenta.

  

Desde 2001, as amigas Roberta Salles, 37, e Samantha dos Reis Carvalho, 31, garantem parte da renda trabalhando como DJs. Ao menos 30 horas por semana, Roberta se dedica ao gerenciamento de redes sociais de empresas de todos os portes. Já Samantha administra o sebo da família. Além disso, a dupla apresenta o Dedilhadas, uma série de programas no YouTube voltada ao público homossexual que começou sem pretensões comerciais e, com a repercussão conquistada, garante novos convites para animar baladas.

Como as funções foram surgindo naturalmente, elas enfrentam a falta de tempo para outras tarefas do dia a dia. “A cada semana, a gente escolhe alguma coisa para fazer”, explica Samantha. Na primeira semana de setembro, a prioridade é organizar a Quentinha, festa promovida por elas em São Paulo, que reconhecem que não conseguiriam fazer uma coisa só. Samantha, por exemplo, tenta engrenar uma nova carreira: a de ilustradora, algo que gostaria de ser desde criança. “A gente não ganha muito e não tem muito tempo, mas nós fazemos coisas que nos dão prazer”, observa Roberta.

  

Sergio Ignacio já resolveu essa equação. Os sábados e domingos são reservados à família e amigos, enquanto a agenda segue cheia nos dias úteis. Aos 51 anos, ele acumula as carreiras de jornalista, psicanalista e roteirista de teatro. Ignacio dedica a maior parte do tempo à agência de comunicação da qual é sócio e, nas noites de terça, atende pacientes no divã. O jornalismo e a psicanálise não davam conta de seu interesse pelo ser humano. Há dois anos, começou a escrever peças teatrais para “se expressar”. Em setembro, seu terceiro roteiro estreia nos palcos: Grão, um espetáculo de dança inspirado no ciclo da vida desenvolvido com o coreógrafo Rubens Oliveira, com quem divide a direção. Apesar das diferentes áreas em que atua, ele acredita que uma coisa leva à outra. “Tudo que você traz para dentro do universo do conhecimento, em algum momento você acaba usando”, conclui.

por Thiago Borges

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